Documentário "Hai África" | 2025
- jesuistradutora
- 6 de jun.
- 3 min de leitura
O Hai África é um centro de transformação social fundado pela brasileira Mariana Fischer, em 2015 na comunidade de Kabiria, nos subúrbios de Nairóbi. O que começou em uma casa pequena, com treze crianças e algumas atividades criativas, tornou-se uma referência em educação Waldorf, nutrição e capacitação profissional para crianças e mulheres da comunidade, atendendo hoje mais de 100 famílias.
Em 2025, o diretor baiano Antônio Galvão viajou para Nairóbi, realizou um documentário sobre o projeto Hai África e pediu a Je Suis transcrever e traduzir do inglês para o português. O intuito da tradução foi fazer com que o Hai África atravessasse fronteiras e encontrasse novos apoiadores.
Quando o inglês não é um só
O inglês falado pelas mulheres e crianças de Kabíria não é o inglês dos grandes centros de mídia. Nairóbi é uma cidade de camadas linguísticas. O inglês é a língua oficial, mas o swahili é a língua nacional. Já o Sheng, é um crioulo urbano que mistura swahili, inglês e dialetos étnicos como o kikuyu, o luo e o luhya, e é a língua viva nas ruas e periferias. Nas comunidades como Kabíria, essas camadas se sobrepõem dentro de uma mesma fala, às vezes dentro de uma mesma frase.
Traduzir um idioma precisa quebrar barreiras hegemônicas. Há culturas inteiras que falam inglês à própria maneira, com estruturas, expressões, ritmos, construídos por misturas ancestrais, histórias de um povo, habitante de geografias que a grande mídia raramente visita. Quando os relatos dessas pessoas não são traduzidos com escuta ativa, eles simplesmente não chegam. Traduzir é ampliar o mapa, localizar microcosmos, escutar a forma de cada um se comunicar em seu íntimo.
O trabalho real
Alguns exemplos de termos e trechos traduzidos pela Je Suis:
As professoras do Hai África usavam o termo babies para se referir às crianças, não aos bebês, mas a todos os alunos. Uma palavra escolhida pela própria liderança da escola como forma de demonstrar afeto.
O matatu, veículo popular em Nairóbi, símbolo da mobilidade urbana queniana, não teve tradução equivalente por se tratar de um termo específico daquele local. Trechos onde as mulheres da Kabíria cantam “Hakuna matata”, canto típico local, não foram traduzidos, por exemplo, porque compreende-se que a imagem é intraduzível. Isso é também uma decisão de tradução. Quando a professora Jane Njeri diz: "It is about bringing the inner of the child out to light" virou "É sobre trazer o interior da criança ao mundo." há uma percepção sutil na ideia da frase. "Out to light" poderia ser traduzido literalmente como "à luz", o que não estaria errado. Mas "ao mundo" carrega a ideia de que a criança existe não só na vida, mas na realidade social em que está inserida, e por isso, deve ser vista.

Além das palavras
Esses são exemplos de detalhes na tradução que não são capazes de serem compreendidos por um sistema de códigos. E além disso, é uma tradução que respeita a expressão da população de Kabíria como ela é, ajudando os falantes da língua portuguesa a compreenderem sua realidade cultural.
Para assistir ao documentário Hai África com transcrição e legenda clique aqui.
Como traduzir e ser fiel ao relato?
Sua história merece ser contada com o mesmo cuidado com que foi criada. A Je Suis traduz conteúdos audiovisuais através da escuta de quem conta essa história.
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