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Língua portuguesa: história e reformas ortográficas

  • Foto do escritor: jesuistradutora
    jesuistradutora
  • 17 de ago.
  • 4 min de leitura

Você já parou para pensar por que hoje escrevemos "farmácia" e não mais "pharmacia"? Ou por que o trema desapareceu das nossas palavras? A língua portuguesa que usamos hoje é o resultado de séculos de transformações, acordos, disputas e influências de diferentes povos e culturas. E ela ainda não parou de mudar.


Entender a origem do idioma português e por que ele passou por reformas ortográficas ao longo dos anos, é também entender um pouco da nossa história, da nossa identidade e de como nos comunicamos com o mundo.


História da língua portuguesa


O ponto de partida está no século III a.C., quando os romanos invadem a Península Ibérica e dividem em 3 grandes províncias, que hoje conhecemos como Portugal (na época, também compreendia algumas cidades que hoje pertencem à Espanha).


Com a dominação, veio o latim (imposto como língua aos lusitanos que habitavam aquelas terras). Desse latim falado pelo povo, nasceu o português. Pelo mesmo motivo, francês, espanhol e italiano também têm o latim como raiz: todos esses territórios foram conquistados pelos romanos, e cada língua foi evoluindo dentro do seu próprio contexto histórico e geográfico.


O Brasil herdou o português a partir de 1500, com a colonização portuguesa, mas a língua que se desenvolveu aqui não é idêntica à de Portugal. O português brasileiro absorveu influências profundas das línguas tupi, falada pelos povos indígenas que habitavam o território, e das línguas banto, trazidas pelos africanos escravizados. O tupi foi tão presente que chegou a ser a língua mais falada no Brasil até o século XVIII, quando o português foi imposto pela metrópole como língua oficial.


Você pode se interessar: Os idiomas mais falados no mundo.


O que são as reformas ortográficas


Reforma ortográfica é uma alteração formal e oficial no sistema de escrita de uma língua. As línguas são organismos vivos: mudam, se adaptam, incorporam novas palavras e abandonam outras. A escrita, no entanto, tende a ser mais conservadora e quando a distância entre como se escreve e como se fala fica grande demais, ou quando países que compartilham um idioma escrevem de formas muito diferentes, entra em cena uma reforma.


No caso do português, o desafio foi ainda maior: unificar a escrita de nações diferentes, com histórias diferentes, que falam a mesma língua de jeitos distintos.


As reformas ortográficas que moldaram o português do Brasil


Reforma Ortográfica de 1911: por que o Brasil não adotou


A primeira grande reforma ortográfica da língua portuguesa aconteceu em 1911, em Portugal, com um objetivo claro: simplificar grafias que ainda refletiam a origem grega e latina das palavras. Foi assim que theatro virou teatro, pharmacia virou farmácia, alumno virou aluno e commercio virou comércio.


O que pouca gente sabe é que, em 1907, a Academia Brasileira de Letras já havia lançado uma iniciativa própria de simplificação ortográfica — que os portugueses ignoraram. Por sua vez, o Brasil também não incorporou as novas regras lusas de 1911, o que gerou ortografias completamente divergentes entre os dois países por décadas.


Apenas em 1931, com o Acordo Ortográfico Luso-Brasileiro assinado pela Academia Brasileira de Letras e pela Academia das Ciências de Lisboa, o Brasil passou a adotar um padrão mais próximo ao português europeu, ainda assim com diferenças que persistiram.



Formulário Ortográfico de 1943: o Brasil cria seu próprio padrão


As divergências entre as ortografias brasileira e portuguesa se acumularam ao ponto de exigir uma solução local. Em 1943, a Academia Brasileira de Letras publicou o Formulário Ortográfico, um conjunto de normas técnicas que oficializou o padrão de escrita do português brasileiro, reconhecendo formalmente as diferenças em relação ao português europeu.


Reforma Ortográfica de 1971: simplificando a acentuação


Em 1971, uma reforma mais cirúrgica entrou em vigor no Brasil, focada principalmente nas regras de acentuação. Até então, existia o chamado "acento diferencial", usado para distinguir palavras com a mesma grafia, mas sentidos diferentes. Por exemplo:


  • pilôto (substantivo) / eu piloto (verbo)

  • êle (pronome) / ele (nome da letra L)

  • govêrno (substantivo) / eu governo (verbo)


A reforma eliminou a maioria dessas distinções, simplificando a escrita. Algumas exceções foram mantidas e até hoje persistem, como


  • por (preposição) / pôr (verbo)

  • pode (presente) / pôde (pretérito).


Portugal fez uma reforma equivalente em 1973, e com isso cerca de 70% das divergências entre os dois países desapareceram da escrita.


Propaganda das Tannhauser 1952
Propaganda das Tannhauser, 1952

Acordo Ortográfico de 1990: um idioma, muitas nações


O Acordo Ortográfico de 1990 foi a tentativa mais ambiciosa de unificação, reunindo todos os países de língua portuguesa: Brasil, Portugal, Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste, sob um mesmo sistema de escrita.


O argumento era claro: aproximadamente 250 milhões de pessoas falam português no mundo, e a fragmentação ortográfica enfraquecia o prestígio do idioma em organismos internacionais como a ONU.


Na prática, o acordo levou décadas para entrar em vigor. No Brasil, as mudanças foram implementadas só a partir de 2009. As principais alterações envolveram:


  • Eliminação do trema em todas as palavras

  • Incorporação definitiva das letras k, w e y ao alfabeto (que passou a ter 26 letras)

  • Novas regras para o uso do hífen e da acentuação


Muitas dessas mudanças já incorporamos de forma quase natural. Outras ainda causam dúvidas.


A língua que nos une (e nos diferencia)


Esses Acordos Ortográficos buscam unificar a forma escrita do português. Mas a forma falada sempre será diferente de um país para outro, de uma região para outra e até de uma cidade para a outra.


Conhecer a origem da nossa língua é uma forma de entender nossa história, nossa cultura e quem somos. E é também o ponto de partida para aprender outros idiomas com mais profundidade.


Na Je Suis Tradutora, esse entendimento está no centro de tudo o que fazemos. Traduzir é conhecer o idioma de origem tão bem quanto o de chegada e saber que entre os dois existe sempre uma história.


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