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Uma lupa sobre a tradução musical

  • Foto do escritor: jesuistradutora
    jesuistradutora
  • 10 de ago.
  • 9 min de leitura

Atualizado: há 6 dias

A música está presente em praticamente todos os momentos da vida. Ela atravessa gerações, acompanha celebrações, despedidas, protestos e romances, e constrói parte importante da memória afetiva de um povo. No Brasil, um dos maiores consumidores de música do mundo, ela também é uma das principais formas de circulação da cultura. É por meio das canções que expressões regionais se popularizam, histórias viajam entre países e diferentes imaginários passam a fazer parte do repertório coletivo.


plastico amor e barulho

Tradução musical não se limita a substituir palavras de uma língua por outras. Em muitos casos, é preciso realizar um trabalho de localização, isto é, adaptar referências culturais, reorganizar a poética e preencher a versão de elementos familiares. Algumas traduções procuram manter a história original quase intacta; outras transformam completamente o ponto de vista, o simbolismo ou até mesmo o sentido da obra.


Neste artigo, usamos algumas lentes para observar esse percurso. Analisamos músicas brasileiras que nasceram como versões de canções internacionais, músicas brasileiras que ganharam versões em outros idiomas e também obras criadas simultaneamente por artistas de diferentes nacionalidades. O objetivo é investigar como a tradução se torna um canal de comunicação entre culturas e como cada idioma influencia a forma como uma história pode ser contada.


Erva Venenosa / Poison Ivy


Gravada pelos The Coasters em 1959, "Poison Ivy" surgiu como metáfora de uma infecção sexualmente transmissível, interpretação posteriormente confirmada pelo próprio letrista Jerry Leiber. A canção brinca com a ideia do perigo invisível de uma mulher aparentemente encantadora que, ao se aproximar, causa um mal do qual é difícil escapar. A imagem da planta venenosa funciona justamente como metáfora dessa ameaça.


Décadas depois, Rita Lee eternizou a música no Brasil com "Erva Venenosa". A versão preserva a estrutura narrativa, o humor e o retrato de uma mulher sedutora e perigosa, mas abandona completamente a camada simbólica relacionada à doença venérea, profundamente ligada ao contexto social norte-americano do pós-guerra. 


Cada idioma mobiliza seu próprio repertório de imagens para contar a história.



Erva Venenosa, Rita Lee:

Venenosa, ê

Erva venenosa, ê

É pior do que cobra cascavel

Seu veneno é cruel


De longe não é feia

Tem voz de uma sereia

Cuidado não a toque

Ela é má pode até te dar um choque


Poison Ivy, The Coasters:

Poison iv-y-y-y-y,

poison iv-y-y-y-y

Late at night while you're sleepin' poison ivy comes A'creepin'

Arou-ou-ou-ou-ou-ound


She's pretty as a daisy

But look out man she's crazy

She'll really do you in

If you let her get under your skin


Garota de Ipanema / The Girl from Ipanema


Escrita por Vinícius de Moraes e musicada por Tom Jobim em 1962, Garota de Ipanema tornou-se um dos maiores símbolos da música brasileira. O poema narra o encontro do eu lírico com uma beleza quase inalcançável. A jovem que passa pela praia desperta admiração, mas também uma profunda sensação de solidão. O centro da narrativa não está na mulher observada, mas no homem que, diante daquela beleza, toma consciência da própria falta. A garota não é apenas um objeto de desejo. Ela funciona como um espelho que revela ao narrador uma ausência interior. Sua passagem torna o mundo mais bonito, mas também evidencia que essa beleza não lhe pertence. O amor aparece menos como conquista e mais como contemplação.


Garota de Ipanema, Tom Jobim:

Ah, se ela soubesse que quando ela passa

O mundo inteirinho se enche de graça

E fica mais lindo por causa do amor


Ah, por que estou tão sozinho?

Ah, por que tudo é tão triste?

Ah, a beleza que existe

A beleza que não é só minha

Que também passa sozinha


Dois anos depois, quando Astrud Gilberto gravou “The Girl from Ipanema”, a canção ganhou uma nova interpretação. A paisagem continua sendo a praia carioca, a garota continua caminhando diante dos olhos do narrador, mas o foco da narrativa se desloca. O sentimento predominante deixa de ser a contemplação melancólica para dar lugar ao desejo romântico. O homem observa a mulher porque gostaria de conquistá-la, mas ela simplesmente não percebe sua presença. A solidão já não nasce da reflexão sobre si mesmo, e sim da impossibilidade de ter o desejo correspondido.


The Girl from Ipanema, Astrud Gilberto:

Tall, and tan, and young, and lovely

The girl from Ipanema goes walking

And when she passes, his smiles

But she doesn't see


Ooh, but you watch her so sadly

How can he tell her he loves her?

Yes, he would give his heart gladly

But each day, when she walks to the sea

She looks straight ahead, not at him


Mas Que Nada


Em vez de traduzir a música de Jorge Ben para o inglês ou reescrever toda a letra, o que o grupo Black Eyed Peas fez em “Mas Que Nada” foi manter a canção original e criar uma nova camada sobre ela.


mas que nada jorge ben

A letra em português continua sendo cantada, enquanto o grupo acrescenta novos versos em inglês, na linguagem do hip hop. É interessante perceber que essa conversa também acontece no próprio tema da música. Jorge Ben canta "esse samba que é misto de maracatu". Já o Black Eyed Peas faz o mesmo movimento ao apresentar a mistura de samba e hip hop. 


Mas que nada, Jorge Ben:

Mas, que nada

Sai da minha frente, eu quero passar

Pois o samba está animado, que eu quero é sambar


Esse samba que é misto de maracatu

É samba de preto velho, samba de pretutu

Mas, que nada

Um samba como esse tão legal

Você não vai querer que eu chegue no final


Oaria raioOba oba oba


Mas que nada, Black Eyed Peas :

Oaria raioOba oba oba


Mas que nada

Black eyed peas came in to make it hotter

We beat the party starters

Bubblin up just like lava

Like lava heat it like a sauna

Penetrating into your body armor

Rhythmically we message ya

With hip hop mixed up with samba

With samba so yes yes yall


Negro Amor / It's All Over Now, Baby Blue 


Bob Dylan gravou "It's All Over Now, Baby Blue" em 1965, uma canção de despedida construída com imagens poéticas e surreais. Quando Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti versionaram a música para a voz de Gal Costa, em 1977, tomaram uma liberdade que começa antes mesmo da primeira estrofe. "Baby Blue" sugere o nome de alguém triste, pois o termo "blue”, em inglês, remete à tristeza e à depressão. Em português, o título tenta reproduzir o mesmo efeito e transforma-se em "Negro Amor".



Ao longo da canção, Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti fazem diversas intervenções que aproximam a letra do repertório poético da língua portuguesa. Acrescentam interjeições, modificam determinadas imagens, introduzem um vocabulário mais característico da canção brasileira e, em alguns momentos, dramatizam passagens da letra original. 


Um dos exemplos que mais chamam a atenção é a palavra “saints”, presente na versão de Bob Dylan, que, na versão brasileira interpretada por Gal, torna-se “alquimistas". São imagens muito diferentes entre si. Enquanto “saints” remete à espiritualidade da tradição cristã, “alquimistas” evoca transformação, mistério e conhecimento esotérico.


Em ambos os casos, há a sensação de que algo maior está prestes a acontecer, de que um ciclo chegou ao fim e de que uma transformação é inevitável. 


It's all over now, baby blue, Bob Dylan:

You must leave now, take what you need, you think will last

But whatever you wish to keep, you better grab it fast

Yonder stands your orphan with his gun

Cryin' like a fire in the Sun

Look out, the saints are comin' through


And it's all over now, Baby Blue


The highway is for gamblers, better use your sense

Take what you have gathered from coincidence

The empty-handed painter from your streets

Is drawin' crazy patterns on your sheets

The sky, too, is foldin' under you


Negro Amor, Gal Costa:

Vá, se mande, pegue tudo que você puder levar

Ande, tudo que parece seu, é bom que agarre já

Seu filho feio e louco ficou só

Chorando feito fogo, à luz do sol

Os alquimistas já estão no corredor


E não tem mais nada, negro amor


A estrada é pra você, e o jogo e a indecência

Junte tudo que você conseguiu por coincidência

E o pintor de rua que anda só

Desenha maluquice em seu lençol

Sob seus pés, o céu também rachou


Boa Sorte / Good Luck (Vanessa da Mata feat. Ben Harper) 


Vanessa da Mata compôs a melodia e a estrutura da música e convidou Ben Harper para participar da gravação. Ele escreveu sua parte em inglês, e as duas composições passaram a coexistir na mesma obra. Ao longo da canção, Vanessa canta em português enquanto Ben Harper responde em inglês, criando um diálogo em que as duas línguas contam a mesma história e acompanham o mesmo percurso emocional.


Não há um texto de partida nem um texto de chegada no sentido tradicional. O que existe é uma criação português-inglês escrita lado a lado. Diferentemente dos outros exemplos de canção bilíngue presentes neste artigo, em que há sempre duas faixas, esta é apenas uma faixa em que ambos os cantores cantam simultaneamente. 


As frases são curtas, diretas e preservam o beat da canção.


Boa Sorte/Good Luck, Vanessa da Mata e Ben Harper:

É só isso

Não tem mais jeito

Acabou

Boa sorte

Não tenho o que dizer

São só palavras

E o que eu sinto

Não mudará


That's it

There's no way

It's over

Good luck

I have nothing left to say

It's only words

And what l feel

Won't change


Tradução musical do Brega


Quando olhamos para gêneros como o arrocha, a seresta e o piseiro, grande parte da força dessas músicas está justamente na forma como são cantadas, nas escolhas de vocabulário, na maneira de dramatizar o sofrimento amoroso e na relação que constroem com o público. 


Em vez de simplesmente traduzir uma letra, muitas dessas músicas passam por um processo de adaptação que também envolve o ritmo, a interpretação e a identidade musical. É o caso do Bonde do Forró, que interpreta “Take on Me”, do A-ha, e "Heaven", gravada por Anselmo Rosaman, que mantém a letra em inglês, mas transporta o tema da música para a seresta. 


O movimento também ocorre no sentido contrário. Basta Você Me Ligar, sucesso dos Barões da Pisadinha, ganhou uma versão em inglês na voz da cantora canadense Kim Sola. 


Basta Você Me Ligar, Barões da Pisadinha:

Falou que eu 'to com nojo da tua cara

E não quero te ver nem de graça

Digo que eu não volto nem a pau

E que tu não vale um real


Mas é só tu ligar pra mim

Que eu não resisto

Eu queria dizer não mas não consigo

É só me ligar que a perna fica bamba

Bateu saudade eu vou parar na sua cama


All you gotta do is call me, Kim Sola:

I told you I'm disgusted by your face

I won't come back, not even if you chase me

I said we're over, don't you ever bother

Said that you aren't even worth a dollar


But I swear, if you call me

I won't resist you

I want to say no, but I wanna see you

And if you call me

You know where I'm heading

Out the door, in your bed is where it's ending


Outro exemplo inesquecível é "Agora Estou Sofrendo", eternizada pela banda Calcinha Preta e também gravada por Raquel dos Teclados. A canção nasceu como adaptação de "Bleeding Heart", da banda brasileira de metal Angra.


calcinha preta

Bleeding Heart, Angra:

Now I know that the end comes

You knew since the beginning

Didn't want to believe it's true

You are alone again, my soul will be with you


Why is the clock even running

If my world isn t turning?

Hear your voice in the doorway wind

You are alone again, I'm only waiting


Agora estou sofrendo, Calcinha Preta:

Não há amor para mim, não

(Você estava mentindo)

Diga logo que não me amou

Que não gostou de mim

Não sente amor por mim


Quais as armas que encontrar

Pra fazer seu encanto

Derramar seu amor em mim

Mas não gostou de mim

Não sente amor


Aqui, a história continua sendo um sofrimento amoroso, mas  enquanto a versão original constrói imagens mais abstratas e introspectivas, a adaptação aproxima a letra de um sofrimento característico do brega.


No espanhol, tem o exemplo clássico de "Tontos e Loucos", versão dos Aviões do Forró da canção "Dos Locos", original da dupla dominicana Monchy & Alexandra. 



Dos Locos, Monchy & Alexandra:

El tiempo no ha logrado

Que te olvide

Tu amor dado las huellas

De tu amor


Todavía siento el sabor

De tus besos en mi boca

Todavía siento tus manos

Acariciándome la piel


Tontos e Loucos, Aviões do Forró:

O tempo nunca fez 

eu te esquecer

Não apagaram as marcas 

desse amor


Ainda sinto o sabor 

do teu beijo em minha boca

Ainda sinto tua mão 

acariciando a minha pele


Tradução e canção


Por trás de cada canção existe um porquê de ser certa oralidade, certo ritmo, certas referências, certo contexto histórico, temporal, político e social. A música revela como cada povo constrói seu imaginário. 


É esse percurso que permite compreender não apenas o que uma canção diz, mas também por que diz daquela maneira e como pode produzir um efeito paralelo ao de outra cultura.


Como seria a versão de uma canção criada por uma IA, considerando que a tradução é um exercício de leitura do mundo? E talvez seja esse o maior desafio, compreender o que não está escrito em palavras, mas cuja devida tradução sustenta o sentido de uma obra.


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Je Suis Tradutora, um olhar para o sentido.



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