Quem traduziu o livro da sua vida?
- jesuistradutora
- há 24 horas
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Você já teve curiosidade em saber quem traduziu o livro que você leu? Ou se é uma obra nacional, como se saíram as versões feitas em outros idiomas?
Dostoiévski nunca escreveu “Crime e Castigo”, escreveu Преступление и наказание. James Joyce desconheceria muitas palavras presentes na edição brasileira de “Ulysses”. Entre o que o escritor registrou e como um leitor de outra língua-mãe fruiu esse livro, há uma passagem trabalhosa e de natureza humana, recriada por um tradutor.

Traduzir literatura talvez seja uma das formas mais radicais de lembrar que um tradutor precisa, antes de tudo, ser um leitor fiel e, de algum modo, um escritor recontando uma boa história.
Existem versões cujo resultado ganhou tanto destaque no país de destino que os tradutores passaram a fazer parte da história daquela obra. E aqui eu cito os meus favoritos: Caetano W. Galindo com Ulysses, de James Joyce; Paulo Bezerra pela tradução de Crime e Castigo, de Dostoiévski, direta do russo, e Bruna Beber, que, por ser também poeta, traduz poemas segundo as leis da poética.
Galindo, o pai brasileiro de Ulysses
Se existe um livro que transformou Caetano W. Galindo em um dos tradutores literários mais conhecidos do Brasil, esse é Ulysses, de James Joyce.
Galindo iniciou a tradução como parte de sua pesquisa de doutorado e, quase uma década depois, a obra foi publicada pela Companhia das Letras. A tradução ganhou os prêmios Jabuti, APCA e da Academia Brasileira de Letras. O próprio Galindo já disse que Ulysses lhe deu a carreira de tradutor, a trajetória acadêmica e boa parte da projeção que conquistou depois.
O tamanho do trabalho começa a fazer sentido quando olhamos para o que Joyce faz com a língua. Ulysses muda de estilo constantemente, mistura registros, inventa palavras, brinca com sons, reproduz modos de falar e transforma a própria forma da escrita ao longo do romance.
Joyce começa apresentando Buck Mulligan no topo de uma escada. No original, ele é descrito como “stately” e “plump”. Em uma tradução mais imediata, poderíamos chegar a algo como “majestoso”, “gordo” ou “rechonchudo”. Galindo prefere:
“Solene, o roliço Buck Mulligan surgiu no alto da escada [...]”
“Roliço” não é simplesmente uma correspondência automática de “plump”. A palavra tem som, humor e uma certa estranheza que combina com a cena. Um estudo que compara as traduções brasileiras de Ulysses observa também que Galindo reorganiza o restante da frase tentando preservar a prosódia e a sintaxe do original.
Pouco depois aparece outro detalhe interessante. Joyce escreve:
Come up, Kinch. Come up, you fearful jesuit.
Galindo traduz: “Suba, Kinch! Sobe, seu jesuíta medonho!”
O “fearful” poderia facilmente virar “terrível”, “assustador” ou “medroso”, dependendo de como a frase fosse lida isoladamente. “Medonho” preserva algo do exagero e da ironia da provocação entre os personagens. A pontuação também muda: onde Joyce usa pontos, Galindo usa exclamações, reforçando, em português, o tom da fala.
Galindo descreve sua proposta para o livro como uma tentativa de preservar o número de registros que Joyce coloca em circulação, quando, por exemplo, uma tradução se torna mais inventiva porque o texto pede coloquialidade. A fidelidade não está necessariamente em repetir a estrutura mais óbvia da frase. Às vezes, para produzir no leitor brasileiro um efeito semelhante ao do original, é preciso, justamente, se afastar dele.
Talvez por isso ele tenha uma definição particularmente boa para o papel do tradutor: o tradutor é “o autor da pele do texto”. A história, os personagens e a concepção da obra continuam sendo de Joyce. Mas as palavras que o leitor brasileiro encontra efetivamente na página foram escritas por outra pessoa.
Dostoiévski sem escalas
Quando a Editora 34 publicou Crime e Castigo com tradução de Paulo Bezerra, em 2001, o romance de Dostoiévski evidentemente não era novidade no Brasil. Algumas das versões mais conhecidas que circulavam por aqui tinham passado antes por outra língua, principalmente pelo francês, o que significa que o leitor estava lendo Dostoiévski também a partir da interpretação do tradutor do francês.
A edição de Bezerra foi a primeira tradução brasileira de Crime e Castigo feita diretamente do russo. Um estudo da USP comparou a tradução direta de Paulo Bezerra à de Rosário Fusco, publicada em 1949 e realizada a partir do francês. A análise encontrou, na versão indireta, alterações de estilo, cortes e mudanças até na paragrafação do romance.
O próprio Bezerra chama a atenção para um problema específico. Dostoiévski escreve personagens em estados psicológicos extremos, o que se reflete na construção das frases. Há descontinuidades, omissões, repetições, incongruências, reticências, evasivas e ressalvas, hesitações, interrupções e mudanças bruscas de pensamento. Nem sempre é uma prosa “bonita” no sentido tradicional da palavra. E não deveria ser. A forma e o estado psicológico estão muito próximos. Raskólnikov pensa de maneira febril, volta atrás, se contradiz.
Um exemplo aparece na fala de um tenente tomado pela raiva. Dostoiévski escreve sua fala de maneira entrecortada, prolongando e quebrando as palavras para reproduzir a dificuldade do personagem em articulá-las no meio da cólera.
Original em russo
“Извольте ма-а-а-лчать! [...] Не гр-р-рубиянить, судырь!”
Mesmo sem compreender o russo, o importante aqui é observar graficamente o ма-а-а e o гр-р-р: Dostoiévski descreve a dificuldade do personagem em articular as palavras em meio à cólera.
Rosário Fusco
“Cale-se. [...] Não seja insolente, cavalheiro.”
Paulo Bezerra
“Trate de ca-lar-a-bo-ca! [...] Nada de gr-r-rosseria, senhor!”
Em traduções indiretas anteriores, parte dessa irregularidade era corrigida. O texto chegava ao português de forma mais organizada e elegante. Organizar a fala pode acabar organizando a personagem. E Dostoiévski é desordem.
A tradução recebeu o Prêmio Paulo Rónai da Fundação Biblioteca Nacional em 2002 e abriu caminho para um projeto muito maior de tradução direta da literatura russa no Brasil.
Um poeta Beber de outro poeta
Bruna Beber ocupa um lugar um pouco diferente nessa história. Poeta e tradutora, sua relação com a linguagem também passa pela criação literária.
Ela traduz desde poesia e ficção até literatura infantil e já trabalhou com autores como Sylvia Plath, Louise Glück, Shakespeare, Lewis Carroll, Dr. Seuss, Anne Sexton, Neil Gaiman, Eileen Myles e Miranda July.
Um bom exemplo de como ela trabalha aparece em Mary Ventura e o Nono Reino, um conto que Sylvia Plath escreveu em 1952 e que chegou ao Brasil em tradução de Bruna.
Em determinado momento, Plath escreve:
the hand of the clock clipped off another minute
Uma tradução mais próxima da estrutura do inglês poderia falar simplesmente que “o ponteiro do relógio marcou mais um minuto” ou que “mais um minuto passou”.
Bruna escolhe: “o ponteiro do relógio encurtou mais um minuto”
A imagem continua estranha. O verbo “clipped” traz a ideia de algo ser aparado. Em vez de explicar a imagem ao leitor, a tradução procura criar outra imagem em português.
Em outro trecho, the woman had come lurching down the aisle, puffing and red-faced vira:
“A mulher chegara atabalhoada pelo corredor, corada e esbaforida”
Aqui interessa menos procurar qual palavra inglesa corresponde a “atabalhoada” e mais perceber como a frase inteira ganha corpo em português.
No Dr. Seuss, a expressão “Lifted Lorax”. Uma tradução puramente semântica provavelmente perderia o jogo sonoro das palavras. A solução encontrada foi “Logradouro do Lorax”. O significado literal muda, mas em português aparece uma relação sonora parecida: Logradouro/Lorax. Segundo Bruna, a escolha surgiu justamente da necessidade de preservar a sonoridade.
É um exemplo pequeno, mas bastante claro, do que acontece quando não há uma equivalência pronta à espera do tradutor.
Bruna descreve a tradução como um exercício de voz e de escuta. Para ela, existe a voz do autor, existe a voz de quem traduz e, do encontro das duas, surge uma terceira voz, aquela que finalmente chega ao leitor.
Afinal, como fazer uma tradução literária?
Nenhum deles simplesmente traduz uma frase pronta de uma língua para outra. Lê primeiro e então decide como aquela literatura pode existir em português.
Na Je Suis Tradutora, já tivemos a oportunidade de fazer esse caminho na direção contrária: levar uma obra escrita em português para leitores de língua inglesa, com a obra documental Catadoras de Luxo - Heroínas Invisíveis (Laíze Lantyer Luz).
Como mostram Galindo, Bezerra e Beber, muitas vezes é preciso preservar uma estranheza, recriar um som, manter uma fala quebrada ou encontrar outra imagem para que o texto continue produzindo algo próximo da experiência do original.
Se você escreveu um livro, conto, poema ou outra obra literária e quer que ela encontre leitores em outro idioma, a Je Suis Tradutora trabalha com tradução e versão literária.
Je Suis Tradutora, um olhar para o sentido.



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