Google for Startups | 2022
- jesuistradutora
- 3 de jun.
- 3 min de leitura
Em 2022, o Google for Startups contratou a Je Suis Tradutora para traduzir pesquisas sobre inteligência artificial, afroempreendedorismo e a escassez de profissionais de tecnologia no Brasil. Os materiais reuniam análises, dados estatísticos, entrevistas, frases de impacto e recomendações voltadas a empresas, pesquisadores e formuladores de políticas públicas.

Decisões de tradução que preservam o sentido
Pesquisas institucionais exigem uma abordagem diferente da utilizada em campanhas publicitárias e em materiais de comunicação. Além da precisão terminológica, é necessário manter a consistência ao longo de todo o documento, respeitar a linguagem adotada pela instituição e preservar o significado de conceitos que, muitas vezes, ainda estão em processo de consolidação.
No caso de temas como inteligência artificial e mercado de tecnologia, pequenas escolhas terminológicas podem alterar a interpretação de um dado ou comprometer a coerência entre gráficos, tabelas e análises textuais. Já pesquisas sobre empreendedorismo e diversidade exigem atenção ao contexto social e regional em que determinados conceitos foram formulados.
As pesquisas produzidas pelo Google for Startups também não adotavam uma linguagem estritamente acadêmica. Os textos transitavam entre o discurso institucional, a linguagem de negócios e elementos de comunicação, o que exigia equilibrar precisão terminológica e naturalidade. Em determinados trechos, isso significava recorrer a soluções mais ousadas para preservar o efeito do texto original.

Algumas escolhas de tradução ilustram esse processo:
Na apresentação sobre inteligência artificial, a expressão "fuga de talentos" foi traduzida como "talent drain". Em vez de uma tradução literal, optou-se por utilizar o termo já consolidado na literatura acadêmica e no mercado internacional para designar a migração de profissionais qualificados.
Outro exemplo aparece no trecho:
"Temos a faca e o queijo na mão…"
que se tornou:
"We have the upper hand..."
Embora a expressão "a faca e o queijo" não exista em inglês, "have the upper hand" transmite a mesma ideia de estar numa posição de vantagem. Um equívoco frequente consiste em traduzir uma expressão idiomática literalmente, esperando que produza no leitor estrangeiro o mesmo efeito que produz no leitor brasileiro. Na prática, isso raramente acontece.
Na pesquisa sobre afroempreendedorismo, uma das referências centrais era o verso da canção "Principia", de Emicida:
"Tudo o que nóis tem é nóis."
A tradução adotada foi:
"Us is all we got."
A mesma lógica orientou a tradução da frase seguinte:
"Se tudo que nóis tem é nóis, nossa proposta é construir um grande nóis."
que passou para:
"If us is all we got, we propose to build a great us."
Em vez de seguir a convenção gramatical, a escolha preserva a marca de oralidade presente no verso original, respeitando seu caráter artístico e sua dimensão identitária. Afinal, a forma como um grupo se comunica também expressa sua identidade. Além disso, a tradução precisava manter a transformação do pronome "nós" em um conceito coletivo que permeia toda a apresentação.
Já na pesquisa sobre a escassez de profissionais de tecnologia no Brasil, tivemos o seguinte exemplo na fala de um entrevistado:
O trecho:
"Empresa grande roubando talento de empresa menor, e todo mundo ali cascateando um pouco."
Foi traduzido como:
"Large companies stealing talent from small ones, and everybody is having a bite."
O termo "cascateando", nesse contexto, descreve um movimento em que as empresas vão se beneficiando umas das outras ao disputar os mesmos profissionais. Embora "cascade" seja a tradução literal de "cascatear", a palavra soaria estranha em inglês e não produziria o efeito pretendido. A solução foi recorrer à expressão idiomática "to have a bite", que, embora não seja um equivalente direto, transmite a mesma ideia de que diferentes empresas acabam tirando proveito da mesma situação.
Embora tratem de temas diferentes, em nenhum dos exemplos a solução estava na tradução literal. Cada escolha exigiu considerar o contexto em que a palavra ou expressão produzia sentido no texto original.
A responsabilidade de traduzir uma pesquisa de mercado
Projetos como esse mostram que a tradução de pesquisas vai além da terminologia técnica. Ela exige compreender referências culturais, metáforas, registros linguísticos e conceitos próprios de cada área, para que o conteúdo continue fazendo sentido em outro idioma.
É esse mesmo cuidado que a Je Suis Tradutora aplica à tradução de pesquisas, relatórios, apresentações e outros materiais institucionais produzidos por empresas, universidades e organizações.
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Je Suis Tradutora, um olhar para o sentido.



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