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Localização não é tradução (e por que isso define o sucesso do seu negócio)

  • Foto do escritor: jesuistradutora
    jesuistradutora
  • 27 de jul.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 3 de ago.

É comum ouvir a pergunta: "Mas isso não é simplesmente traduzir?" Nem sempre. Entender essa diferença pode ser justamente o que separa um conteúdo que parece traduzido de outro que soa como se tivesse sido criado originalmente naquele idioma.


localização no filme shrek

Traduzir é levar um texto de uma língua para outra. Localizar é fazer com que ele provoque o mesmo efeito em outra cultura, o que implica considerar referências locais, humor, contexto, ritmo de fala, identidade da marca e até mesmo elementos visuais. É por isso que uma legenda pode estar gramaticalmente impecável e, ainda assim, matar a graça de uma piada.


Localização não é uma etapa extra da tradução. É uma estratégia de comunicação.


Um vocabulário rápido para não se perder


Antes de seguir, vale esclarecer alguns termos que aparecem com frequência nesse universo:


Tradução (t9n): converte o significado de um texto de um idioma para outro.


Localização (l10n): adapta um conteúdo linguisticamente e culturalmente para um público específico. Envolve escolhas de linguagem, referências, tom de voz, convenções locais e até mesmo elementos visuais.


Internacionalização (i18n): prepara um produto para que possa ser localizado sem precisar ser reconstruído para cada mercado.


Globalização (g11n): estratégia de expansão de empresas e de produtos para diferentes países.


Locale: combinação entre idioma e região. Português do Brasil e português de Portugal, por exemplo, compartilham a mesma língua, mas exigem decisões de comunicação diferentes.


Posicionamento diante da globalização


Quando uma empresa decide lançar um produto em outro país, o desafio não está apenas nas palavras. Algumas das principais perguntas feitas ao longo do processo de globalização: Será que aquele slogan continua impactante? A referência cultural faz sentido? A expressão usada ainda conversa com aquele público? O tom continua transmitindo a personalidade da marca?


É nesse momento que a localização entra em cena.


Enquanto a tradução responde à pergunta "o que esse texto diz?", a localização responde: "como esse texto precisa soar para produzir o mesmo efeito?"


Em Divertida Mente (Inside Out, 2015), a Pixar percebeu que a cena em que Riley faz cara feia ao comer brócolis não produziria o mesmo efeito no Japão, onde esse vegetal é popular entre as crianças. Em vez de apenas alterar o diálogo, o estúdio reanimou a cena e substituiu o brócolis por pimentão verde, um alimento mais associado à rejeição infantil naquele contexto. É um dos exemplos mais conhecidos de localização, em que a experiência do espectador é priorizada em vez da fidelidade literal.


localização no filme divertidamente

Quando nem a literal nem a automática dão conta


Em um projeto para a Tiger Beer, o desafio era traduzir uma campanha de posicionamento inspirada na cultura urbana, no skate e na vida noturna.


Um dos slogans dizia: "Como bons felinos que somos, nosso rolê ganha ainda mais vida quando a noite chega." Uma tradução literal preservaria as palavras, mas perderia completamente o ritmo e o impacto da campanha. A solução foi: "When dark comes, night cats go out."


A escolha mantém a identidade dos "felinos", preserva a atmosfera noturna da marca e soa como uma frase originalmente escrita em inglês.


O mesmo aconteceu com expressões tipicamente brasileiras como "VLW, FLW", que se transformou em "TKS, SEE YA". Não são equivalentes literais, mas cumprem exatamente a mesma função de uma despedida rápida, informal e natural para aquele público.


A localização preserva a experiência, não necessariamente as palavras.


Outro exemplo veio das pesquisas traduzidas para o Google for Startups Brasil. Em um dos relatórios, constava a expressão "Temos a faca e o queijo na mão." A tradução escolhida foi: "We have the upper hand." O leitor perde a imagem da faca e do queijo? Sim, mas mantém o mesmo significado, no mesmo registro de linguagem e com a mesma naturalidade esperada de quem lê em inglês.


Na tradução da dramaturgia Ana e Tadeu, de Mônica Santana, a tradução automática produzia frases corretas do ponto de vista gramatical, mas incapazes de transmitir a intenção do texto. Foi o caso de: "Não vou vestir essa carapuça." que se tornou: I'm not going to wear that hoodie. A tradução automática reconheceu a palavra, mas perdeu completamente a expressão idiomática. A solução adotada foi: That shoe I won't fit.


Em outro trecho, a personagem dizia: "Você sabe que não tenho paciência nenhuma pra DR." Traduzir simplesmente como "DR" não faria sentido para um público estrangeiro. A escolha foi DTR (Define The Relationship), expressão conhecida na cultura anglófona para designar esse tipo de conversa sobre relacionamento.


Nenhum desses casos se resolve com um glossário. Eles pedem o trabalho de alguém que entenda tanto de língua quanto de cultura.


Traduzir é atravessar


Se a sua empresa ou projeto pensa em alcançar outro público, outro país ou outra língua, o risco não é a tradução ficar errada, é ela ficar certa e, ainda assim, não funcionar. A piada perde a graça, o slogan deixa de impactar, a conexão cultural desaparece.


Comunicar em outro idioma é fazer com que a mensagem produza o mesmo efeito onde quer que chegue.


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